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Livro ‘50 formas de amar. Uma é matar’ sugere como perpetuar poucos minutos de êxtase


São Paulo - SP 24/07/2019 12h28

Romance de estreia de Luciano Bivar narra história de amor entre Rick e Suzie, mostrando como há possibilidade de amar enquanto existe vida

Eduardo Negrão

Estamos no rigoroso inverno nova-iorquino, embora o protagonista de ‘50 formas de amar’, Richard – chamado de Rick quase o tempo todo – entra na sua fase outonal e se dá conta que, desta vez, as folhas vão definitivamente cair sem chance de renascimento. Para muitos o outono na metrópole do mundo, que ocorre entre setembro e outubro, é a melhor e mais apropriada época do ano para aproveitar a cidade. Para Rick, que recebe a notícia do diagnóstico de aneurisma, as baixas temperaturas do gélido inverno norte-americano não vão afastar as chamas que estão para aquecer o seu coração e, aguardem, a sua libido.

Embora seja a 6ª obra do político Luciano Bivar, deputado federal por Pernambuco e presidente do diretório nacional cujo candidato venceu as eleições presidenciais no Brasil ocorridas em 2018, ‘50 formas de amar. Uma é matar’ trata-se do romance de estreia do autor. As safras literárias anteriores foram de não-ficção, com títulos no gênero autoajuda. O lançamento do romance ficcional teve notoriedade e espaços na grande imprensa, em especial na revista Veja e no jornal O Estado de S. Paulo. A mídia regional também se preocupou em trazer informações da lavra literária do parlamentar federal, com espaço no Jornal do Commércio, tradicional veículo impresso de Recife, capital do Estado de Pernambuco.

O enredo tem alternância no foco narrativo (ora Rick, ora Suzie) e, justamente para que o leitor não fique perdido, o autor teve o cuidado de mencionar em cada trecho dos capítulos - numa espécie de subtítulo - qual é o personagem que raciocina ou está em evidência naquele momento.

Logo nas primeiras páginas o personagem se vê perdido e atônito com a crueldade do diagnóstico, vaticinando míseros cinco anos de vida. Caminhando por uma Nova Iorque tão fria como as paredes de um necrotério, Rick faz uma autoanálise e o autor demonstra que, muito provavelmente, bebeu da fonte de um dos maiores poetas norte-americanos ao descrever o fluxo de consciência do personagem pós-impacto do aneurisma: Robert Frost, mais precisamente o poema ‘The road not taken’, de 1916. “Após caminhar mais algumas quadras, atravessei um pequeno bosque, num caminho estreito e sinuoso, mas bem definido. Qualquer coisa que pudesse ter crescido ali há muito fora pisoteada, e agora estava coberta de neve.

A camada macia amortecia meus passos. Havia um estranho silêncio no bosque, como se preparado para que eu ouvisse os meus pensamentos. Ao olhar para o céu em busca da luz, encontrei apenas a camada de nuvens, cada vez mais densa à medida que elas se embrenhavam nas copas das árvores, com seus galhos cobertos de folhas secas que resistiam ao inverno. Prendi minha angústia indescritível” [página 9]. Na intertextualidade com ‘A estrada não percorrida’ [The road not taken, de Frost], o viajante solo que caminha por um bosque amarelo, portanto na maturidade de sua vida, se vê obrigado a escolher um caminho. O personagem de Frost no poema toma o menos percorrido dos caminhos, mas o de Bivar se vê quase que obrigado a assumir a trilha que em 60 anos de vida jamais havia encarado. É o prenúncio de que estará disposto a viver novas e verdadeiras emoções nestes últimos instantes que lhe restam.

Por sua vez, Suzie é também apresentada ao leitor em um momento de dilema. A personagem revela-se uma intelectual, que concentra alta carga de leitura pois cita o adolescente que não se cansa de chamar a todos de ‘phony’ [chato] em ‘O apanhador do campo de centeio’, Holden Caufield, obra-prima de J.D. Salinger e que formou uma geração de americanos, e a moderna Madame Bovary, personagem emblemática de Gustave Flaubert.

“Se conhecesse a história da minha vida, Rick saberia que não passou de um deslize – e seria certamente capaz de me perdoar. Claro que eu não ia corrigir um erro com outro, isto é, não me passava pela cabeça contar mais a meu respeito para anular o fato de que eu havia lhe contado mais do que deveria. Mas uma parte de mim desejava que Rick soubesse de todo o meu esforço para viver conforme eu mesma queria fazer e acreditava ser certo. Encontrar o próprio caminho é uma tarefa cheia de desafios, e um pequeno acidente não deve comprometer toda a nossa busca” [página 22].

A leitura flui bem, Luciano Bivar consegue prender o interesse do leitor e lhe apresenta uma série de situações e detalhes de duas vidas que se permitem buscar por novas emoções, viver situações prazerosas e saudáveis de um romance. Sem antecipar fases do enredo, mas importante salientar que a obra dialoga com sensibilidade na tentativa de que os poucos minutos de prazer e de plenitude – ora proporcionado pelo calor do sexo de intensidade para ambos, ora por uma boa conversa em ambiente charmoso e altamente agradável – podem ser eternos quando bem vividos.

Dois trechos são interessantes antecipar nesta resenha: “Enternecido de emoção, li e reli aqueles e-mails várias vezes e comecei a acreditar que existe amor sem sexo, como existe carinho sem troca; que existe sexo fora do relacionamento sem deslealdade e que verdadeiramente amor existe em 50 formas de fazê-lo” [página 108] e “Lembrei que, em uma viagem que fizemos a Key West e após uma visita à casa de Hemingway, discutimos porque um homem tão culto, vitorioso em tudo que havia feito, resolveu tirar a própria vida. Mas, se olharmos com certo ceticismo, tudo é muito efêmero: as coisas, as pessoas e as criaturas.

Talvez ele, Ernest Hemingway, tenha entendido que seu ciclo de existir prazerosamente no mundo terreno havia chegado ao fim. No entanto, ele esquecia que, enquanto tivermos saúde, nunca é tarde para aprender e para amar”. Contudo, caberá ao leitor compreender as relevâncias destas transcrições.

Eduardo Negrão é escritor e jornalista. Insta: @prof.eduardonegrao


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