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Quer saber como lidar com a bagunça das crianças?


São Paulo 08/03/2019 11h23

Por Ana Paula Yazbek *

Num final de tarde de domingo, quando meus filhos eram pequenos, meu filho menor saiu rapidamente do quarto que dividia com a irmã, após ter brincado muito tempo sozinho, e bateu a porta com força. Ao se encontrar comigo e com seu pai na sala tentou desviar a nossa atenção, mas não conseguiu, pois fomos direto ao quarto e vimos que estava MUITO bagunçado, com quase todos os brinquedos espalhados pelas camas e pelo chão. Então, saímos de lá e dissemos que ele precisava guardar os brinquedos nos cestos e quando tivesse guardado uma boa parte, ele poderia nos chamar para ajudá-lo.

Prontamente ele entrou no quarto, mas um minuto depois saiu, fechando a porta bruscamente e falando com a voz mais fofa do mundo “Mãe, pai, não pode entrar no meu quarto, porque um rato muito feroz entrou lá e bagunçou tudo!”. Segurando o riso, dissemos que o rato já devia ter ido embora, e voltamos a pedir que guardasse uma parte dos brinquedos e o acompanhamos desde o princípio, recolhendo a maior parte dos brinquedos. Além de render uma história graciosa para nossa família, até hoje convivemos com este “rato terrível” que teima em entrar em seu quarto (aos dezessete anos!). O curioso é que este “bichinho” não entrou mais no quarto da irmã após cada um passar a dormir em cômodos separados.

Já buscamos muitas explicações para esta diferença: seria questão de gênero (ou mesmo um modelo machista de educar filhos); fomos permissivos demais; seria um jeito dele demarcar seu território e as diferenças em relação ao resto da família; seria praga de sogra (ops!) ou seria tudo isso junto e misturado?

Bom, ainda buscamos estas respostas, mas quis partilhar esta história particular, pois fui questionada sobre como agir quando a criança se recusa a arrumar os brinquedos que espalha pela casa e, principalmente, quando ela os arremessa de propósito.

Por uma feliz coincidência, recentemente li num livro, "As origens do brincar livre", editora Omnisciência (1), dirigido prioritariamente para educadores e que contém algumas orientações para conseguir envolver as crianças pequenas na organização dos materiais. Em primeiro lugar, as autoras disseram que cabe aos adultos a organização e que as crianças podem participar com uma pequena parte destas tarefas. Depois, elas sugerem que pensemos sobre a quantidade de brinquedos, objetos e materiais que elas têm disponíveis (o que nos contextos domésticos, costuma ser excessivo, não é mesmo?) e a partir daí, propõem que se faça uma seleção destes materiais, deixando uma quantidade menor disponível para o uso diário e se estabeleça critérios para colocar à mostra os demais (ex. brinquedo para usar aos finais de semana, retirada/doação de brinquedos pouco utilizados e substituição por outros que estejam guardados, além da organização pelos tipos – brinquedos de encaixe; carrinhos; materiais de casinha; bonecas; heróis…).

Incluo aqui a ideia de incorporar as crianças em algumas situações de organização da casa, como: arrumar as almofadas do sofá enquanto os adultos reorganizam a sala; levar a roupa suja para o cesto; colocar a mamadeira/copo de leite na pia; guardar os sabonetes e pastas de dentes nos armários após a compra de supermercado, entre tantas outras.

Quando a bagunça impera, vale a pena evidenciá-la para a criança, mostrando e conversando com ela sobre o quanto perturba ter a casa bagunçada. Caso a criança esteja numa atitude provocativa (algo que fica mais frequente a partir dos 3 anos), transfira a bagunça das áreas comuns da casa para o seu quarto, ou retire temporariamente os objetos de seu acesso.

Não pensem, entretanto que fazer tudo isto é garantia de que tudo será resolvido, vide o que relatei no início do texto. Estamos falando de vida real e não de auto-ajuda! Até hoje temos conversas, brigas, explicações, tolerâncias, ações restritivas… e acredito que mesmo não conseguindo atingir o (nosso) objetivo (como pais), os valores que estão imbricados no ato de cuidar da nossa casa e de nossos objetos chegam (e chegarão) de alguma forma!

PS: Por via das dúvidas, estou à procura de uma ratoeira que dê fim a um “rato terrível”, alguém conhece?

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(1) As origens do brincar livre. Autoras: Éva Kálló e Györgyi Balog

Tradução: Grupo Educar 0 a 3

Editora: Omnisciência

* Ana Paula Yazbek é pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; iniciou mestrado na FEUSP em 2018 e? é sócia-diretora do Espaço da Vila, berçário que atende crianças de 0 a 4 anos; trabalha com formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos sobre as crianças pequenas.


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