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Para alavancar economia, Brasil precisa de mais mulheres trabalhando e estudando nos setores tecnológicos


São Paulo, SP 08/03/2019 09h31

Profissionais femininas são mais propensas a ter seus cargos afetados pela automação, além de terem menos acesso ao ensino de habilidades, mostram estudos.

Divulgação: Udemy Brasil

Numa altura em que mulheres ganham, em média, apenas 77,5% do salário dos homens no Brasil, segundo dados do IBGE, as atividades profissionais científicas e técnicas, principalmente na área tecnológica, são algumas nas quais esta diferença é especialmente acentuada. Se somarmos a isso a estimativa de que quase um bilhão de meninas de até 24 anos ao redor do globo não têm acesso ao ensino de habilidades consideradas fundamentais para o mercado de trabalho do futuro, conforme apontou estudo recente do Fundo Malala, é importante incentivar mais mulheres, especialmente desde cedo, a desenvolver capacidades e a pensar numa carreira dentro do campo tecnológico na tentativa de romper com estereótipos sociais e pavimentar um futuro inclusivo quando se trata de tecnologia e mercado de trabalho. De fato, no Relatório Lacuna de Habilidades da Udemy, 75% mulheres brasileiras disseram que se sentem diretamente afetadas pela falta de skills sets apropriados, 6 pontos percentuais a mais do que os homens.

Como se as perspectivas para as profissionais brasileiras não fossem complexas o suficiente, um estudo divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que pelo menos 180 milhões de mulheres em todo o mundo correm o risco de ver o seu cargo substituído por um robô, num cenário muito mais frágil do que para os homens. Diante desta crescente digitalização, surge a urgência do foco educativo se virar para as áreas da STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), tópico que rapidamente se tornou popular nos países desenvolvidos por trazer características de uma época marcada pela revolução tecnológica e pela busca por inovação nos modelos educacionais. Aliás, o Brasil está entre os países com menor percentual de formados nessas áreas, segundo o relatório Education at a Glance da OCDE: entre os graduados brasileiros, apenas 17% são de cursos na área da STEM, enquanto a média dos países ricos é de 24%. O relatório defende, ainda que atrair mais estudantes para essa área é um dos caminhos para reforçar a economia de um país.

Sem dúvida, estes números não são muito motivadores, por isso proporcionar o desenvolvimento de habilidades no campo tecnológico desde cedo é de vital importância no intuito tornar possível uma resistência laboral feminina no mercado de trabalho. E esta luta já está acontecendo, como é o caso da Helena Bocayuva, hoje empreendedora e especialista em geotecnologia, instrutora de cursos sobre pilotagem de drones na Udemy, a maior plataforma global de ensino online. Publicitária por formação, com especializações nas áreas de TI e marketing, ela trabalhava com geolocalização e imagens de satélite quando conheceu o mundo dos drones, enxergando ali um mercado promissor. Helena pesquisou a então nova tendência, fez o seu business plan e, como sempre foi apaixonada por imagens, resolveu se especializar em pilotagem e filmagem, unindo o útil ao agradável: o mundo dos dados da inteligência geográfica com o mundo das imagens aéreas. Atualmente, ela usa a tecnologia 4.0 como aliada ao seu trabalho, unindo o ensino com a consultoria. “Hoje é possível acoplar drones com super câmeras, sensores e inteligência artificial, permitindo que eles monitorem uma cidade inteira, por exemplo”, diz.

A instrutora afirma que a influência das novas tecnologias no mercado de trabalho tem exigido um novo comportamento, tanto das empresas quanto dos próprios profissionais e dos modelos de negócio, o que acaba refletindo no preparo para este contexto. “As pessoas estão adotando ferramentas modernas como aliadas em suas atividades diárias. As leis e práticas diárias irão se ajustar mais ainda à essa nova realidade e será preciso aceitar a nova tecnologia e se adaptar a ela”, comenta.

Quando indagada se ela sentiu alguma dificuldade por ser uma mulher num mercado dominado, praticamente, por homens, Helena é categórica: “No meu caso foi o contrário, pois tive um destaque muito grande que me favoreceu profissionalmente justamente por eu ser uma mulher neste mercado de homens. Lancei meu canal, comecei a dar aulas na Udemy ensinando a pilotar drones, formatei meu curso presencial e acabei sendo convidada a participar de entrevistas até na Rede Globo. Assim, acabei sendo umas das finalistas no prêmio Top Empreendedoras no Setor de Drones”, comenta a instrutora, que vê oportunidades surpreendentes como essa como mais um motivo para mulheres se aventurarem no mundo tecnológico.

Ela, no entanto, admite que, no geral, a inserção e a aceitação de mulheres neste meio ainda é extremamente difícil. “Muitas vezes não apenas pelo preconceito dos homens, mas sim por nós mulheres não nos unirmos para, juntas, fazer parte desta cena. Não sei se é porque ainda somos relativamente poucas, ou talvez seja culpa da nossa cultura... Acho que, como tudo na vida, o incentivo às jovens cientistas, jovens tecnólogas e jovens empreendedoras deve começar ainda na escola, ensinando também a se comunicar objetivamente. Acho que a educação global online facilitará a comunicação e a troca de conhecimento entre mulheres de culturas diferentes, para assim elas se empoderarem ainda mais e se sentirem motivadas a encarar este mercado de trabalho tecnológico”, frisa.

Competências tech para o presente e o futuro

E quando se fala em mercado de trabalho tecnológico, é interessante observar um contrassenso neste contexto: face às 13,2 milhões de pessoas sem trabalho, a consultoria norte-americana IDC estima que existem 250 mil posições em aberto para profissionais de tecnologia no Brasil, um setor que movimentou US$ 38 bilhões em 2017. Para suprir este déficit e enfrentar muitos outros desafios, é necessário, entre outras ações, implementar políticas para dotar as mulheres de habilidades para se adaptarem ao novo ambiente de trabalho, reduzindo a brecha digital de gênero e facilitando a transição para empregos mais qualificados. No momento em que estamos passando por uma quarta revolução industrial impulsionada pela Internet e pelas tecnologias da informação, a proficiência de habilidades como ciência de dados e marketing digital é especialmente relevante.

“As novas tecnologias criaram novas profissões que não existiam e aboliram outras. Elas mudaram também a forma das pessoas se relacionarem, de criarem e de aprenderem. Elas obrigam as pessoas a continuarem aprendendo ao longo da vida e a se recriarem de modo constante. Isso é difícil porque o ser humano de forma geral é acomodado e não gosta de mudar”, opina Raquel Furchinetti, empreendedora digital, publicitária e instrutora na plataforma da Udemy sobre o uso estratégico do Pinterest. Raquel lembra que desde que se formou, em 1996, ela já vislumbrava o impacto que a internet ter e sempre quis participar disso, especialmente empreendendo. Só que foi só em 2010 que ela começou a pesquisar mais e, em 2016, no auge da crise econômica brasileira, ela aprendeu a criar um site, a direcionar tráfego para ele com SEO e, principalmente, com o Pinterest.

“Não senti dificuldades de entrar no mundo do marketing digital, mas senti sim dificuldade em encontrar outras referências femininas empreendendo no meio digital. O jeito das mulheres fazerem negócios é muito mais relacional do que os homens, que são mais agressivos e diretos. Enquanto as mulheres vendem ajudando e ensinando, os homens vendem com discursos inflamados e as mulheres não ‘compram’ isso”, diz a instrutora, acrescentando que essa é uma das barreiras para mais mulheres entrarem nessa área.

“O mundo tecnológico é dominado por homens, com uma linguagem muito masculina. Isso faz com que as mulheres achem que é impossível ou muito difícil de entrar. A verdade é que a maioria dos sistemas tecnológicos que existem hoje em dia são bem mais simples do que eram no passado, basta boa vontade para aprender e colocar em prática. Um aspecto do mundo do marketing digital é que ele te coloca em pé de igualdade com os homens porque se você encontrar um público e tem algo a vender que é de qualidade, nenhum homem pode te impedir de crescer e ter sucesso. E mulheres têm muito a ensinar, não só uma às outras, mas também aos homens”, completa.


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