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Friedrich Nietzsche, um dos mais influentes pensadores europeus modernos


São Paulo 09/03/2018 15h17

Nietzsche foi capaz de pensar as consequências do triunfo do secularismo do Iluminismo

A importância que o filósofo e escritor Friedrich Nietzsche tem para os estudos humanísticos e para a nossa cultura talvez não necessite de muita justificação ou discussão. Ele foi simplesmente um dos mais influentes pensadores europeus modernos. Suas tentativas de desmascarar os motivos primordiais que subjazem a filosofia, a moral e a religião ocidentais tradicionais afetaram gerações de filósofos, teólogos, psicólogos, poetas, romancistas e dramaturgos subsequentes. De fato, o filósofo anglófono contemporâneo, Richard Rorty, caracterizou toda a época presente como "pós-nietzschiana". Isso porque Nietzsche foi capaz de pensar as consequências do triunfo do secularismo do Iluminismo - captadas em sua observação de que "Deus está morto" - de uma maneira que determinou a agenda para muitos dos mais célebres intelectuais da Europa após sua morte em 1900. Inimigo ardente do nacionalismo, do antissemitismo e da política de poder, seu nome foi posteriormente invocado por fascistas e nazistas para promover as mesmas coisas que ele detestava.

Também pode ser útil lembrar que, segundo Martin Heidegger, Nietzsche é a consumação da tradição filosófica ocidental, o pensador que conduz a metafísica a seu fim; que Michel Foucault frequentemente considerou Nietzsche como o originador de seu método genealógico e de sua ênfase nas práticas discursivas; que Jacques Derrida considera Nietzsche o pensador desconstrutivo por excelência. Tudo isso serve como testemunho eloquente da afirmação de Nietzsche, enunciada em O Anticristo e outros lugares, de que algumas pessoas nascem postumamente; pois essa observação certamente se aplica a seu próprio caso. Não é nenhum acidente, portanto, que a última edição publicada da International Nietzsche Bibliography [Bibliografia Internacional sobre Nietzsche], editada por Herbert Reichert e Karl Schlechta em 1968 - muito antes da recente explosão de interesse pelo filósofo - liste mais de 4.500 títulos dedicados a Nietzsche em 27 idiomas. E não se deve esquecer que a importância de Nietzsche não foi confinada à filosofia, ou mesmo aos estudos humanísticos. Um crítico recente muito discutido, Allan Bloom, argumentou em favor da tese controversa de que a própria vida cultural dos Estados Unidos da América - a má-educação de seus cidadãos, bem como sua mal-orientada filosofia pública - deve ser relacionada a uma versão superficial de (o que o autor considerou como) niilismo virulentamente infeccioso de Nietzsche. De fato, sem endossarmos o diagnóstico de Allan Bloom ou sua tese sobre o papel etiológico de Nietzsche no "fechamento" da mente americana, não é exagero dizer que a influência de Nietzsche tornou-se inevitável em nossa cultura. Quer alguém leia as más apropriações de G. Gordon Liddy, ou vá ao cinema, ou meramente ligue a televisão, Nietzsche sempre parece já estar lá. Por exemplo, Eddie Murphy cita Nietzsche extensamente em um momento culminante do filme "Coming to America" [intitulado no Brasil "Um Príncipe em Nova Iorque"]; um grupo musical de rock chama-se "The Will to Power" ["A Vontade de Poder"]; e até mesmo o adolescente "Dr. Howser" da série de televisão "Doogie Howser, M. D." pode ser ouvido dizendo: "Como disse Nietzsche: ‘Tudo que não me destrói me torna mais forte’". Seria possível citar exemplos mais banais, mais grosseiros e mais difundidos da "apropriação" de Nietzsche que esses? O nome e os epigramas de Nietzsche são invocados em toda parte hoje em dia, vendendo indiscriminadamente tanto ideias quanto produtos.

Desde meados dos anos 1890 até hoje, um século depois, o nome de Nietzsche foi invocado e alistado repetidamente a serviço de todo movimento e agenda política e cultural concebível - do feminismo emancipatório do início do século XX até o fascismo e o nazismo posteriores, de um modernismo faustiano até versões recentes do pós-modernismo. Também não é mais o caso que a influência ubíqua de Nietzsche esteja confinada principalmente a filósofos europeus continentais e a política, aos intelectuais e a cultura popular americana. Em vez disso, sua crítica da moralidade tradicional tornou-se uma força nas reflexões de alguns filósofos anglófonos importantes, como Bernard Williams, Richard Rorty, Martha Nussbaum, Alasdair MacIntyre e Philippa Foot.


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