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Artigo - A violência contra a mulher é uma violência contra toda a sociedade


São Paulo - SP 31/08/2020 11h03

Lelah Monteiro, sexóloga, psicanalista e fisioterapeuta. - Créditos: divulgação.

Estamos nos últimos dias daquele que se convencionou chamar de "Agosto Lilás", em que se procurar alertar a sociedade para a importância do combate à violência doméstica e familiar contra mulheres. É o mês em que, há 14 anos, a Lei 11.340/2006 - ou simplesmente Lei Maria da Penha - foi sancionada, justamente com o intuito de inibir e penalizar os casos de violência doméstica no Brasil. O nome pelo qual esse preceito legal ficou conhecido é uma homenagem à cearense que durante 23 anos foi agredida pelo ex-marido e acabou ficando paraplégica após uma das tentativas de homicídio que sofreu por parte dele. A falta de legislação específica fez com que seu caso se arrastasse nos tribunais e o agressor só fosse condenado por seus crimes 19 anos depois.

Muito se avançou nessa luta, mas um vídeo que veio à tona esta semana nas redes sociais nos faz ver que ela não termina no fim deste mês "lilás", nem deste ano, nem do próximo. Há muito ainda que caminhar.

O vídeo a que me refiro é o que mostra o ocorrido durante a realização do reality show BBB17 (2017) com a "sister" Emilly Araújo, que durante o programa teve um relacionamento bastante tóxico com o "brother" Marcos Harter - cujas atitudes o levaram a ser expulso da casa a 3 dias da final do programa.

No trecho de vídeo vazado, Emilly recebe a visita de uma advogada e de um médico no confessionário do reality show, para falar sobre as agressões que vinha sofrendo e ser informada de seus direitos. Se "decuparmos" os aproximadamente 9 minutos de duração do vídeo, as frases dela deixam explícitos alguns dos principais motivos pelos quais as mulheres agredidas sofrem anos caladas e não buscam ajuda. Ouço as mesmas coisas em meu consultório, das bocas de muitas de minhas pacientes. E não, não é porque mulher "gosta de apanhar".

“Às vezes eu prefiro fechar meus olhos para situações como essa.

Quando eles me alertaram que estavam preocupados com as

atitudes dele comigo, eu decidi ficar mais quieta, decidi que

mesmo que eu ache que esteja errado eu não vou falar,

pra ele não agir mais daquela forma.”

>> Desconhecimento dos seus direitos

Boa parte das mulheres sequer imagina que, em situações como as vividas pela "sister" Emilly, seja possível, a qualquer tempo, denunciar e solicitar medidas protetivas, para evitar que o agressor se aproxime.

É importante deixar claro que a lei considera violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão que lhe cause sofrimento físico, sexual ou psicológico, dano moral ou patrimonial, lesão ou morte, tendo como base o gênero. Não há que esperar que a situação fique no limite para agir. Buscar ajuda é fundamental. E, quanto mais cedo, melhor.

>> "Normalização" da agressão

Vivemos numa cultura que historicamente coloca o homem numa posição hierárquica superior dentro do casal, e a mulher como sua propriedade, alguém que lhe deve obediência. Essa ideia de subserviência acaba justificando e banalizando a agressão. No vídeo, Emilly dá a entender que não reconhecia como violência as atitudes de Marcos para com ela. Foi preciso que os outros participantes do reality se preocupassem e se manifestassem - "eles me alertaram que estavam preocupados com as atitudes dele comigo".

>> Opção pelo silêncio

Por medo; por vergonha; para preservar o relacionamento, a família e os filhos; ou pela certeza de que não vai adiantar falar, as mulheres agredidas preferem agir como a "sister": "Às vezes eu prefiro fechar meus olhos para situações como essa". O que levanta uma questão: se os números de casos de violência no Brasil já são altos, imaginem se todas aquelas que se calaram tivessem se manifestado?

Para se ter uma ideia, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos recebeu, nos primeiros quatro meses de 2020, 37,5 mil denúncias. Um aumento médio de 14,1% em comparação ao mesmo período do ano passado. A que número chegaríamos considerando as subnotificações?

>> Sentimento de culpa

No fundo, no fundo, muitas mulheres ainda acreditam que fazem por merecer a violência que sofrem. "...eu decidi ficar mais quieta, decidi que mesmo que eu ache que esteja errado eu não vou falar pra ele não agir mais daquela forma". Ou seja, a culpa não foi do Marcos, que agrediu Emilly. Foi de Emilly que ousou dizer que Marcos estava errado.

>> Negação do problema

Reconhecer que está vivendo um relacionamento tóxico pode ser frustrante. E as juras de amor? Os planos para o futuro? Os sonhos sonhados juntos? Como ficam? Ignorar o problema pode, em alguma medida, ser confortável.

Violento? Não! "Às vezes ele perde o controle". Sendo "apenas" isso - por que não perdoar?

"E quando a gente deitou no chão ele segurou meu rosto

e bateu minha cabeça no chão. Não ficou doendo,

ele balançou minha cabeça e eu assustei com isso

e eu perdoei ele. Ele começou a chorar muito e eu desculpei".

As vítimas da violência contra a mulher não são só essas namoradas, esposas, mães. São filhos e filhas que observam essa violência, acham normal e que acabam reproduzindo esse padrão de alguma forma. É toda a sociedade. Precisamos falar mais sobre isso para evitar que esse círculo vicioso se perpetue.

Como psicanalista e terapeuta de casal e de família, com especialização no tratamento de abuso e violência, ressalto que o apoio terapêutico é fundamental para que essas mulheres não aceitem agressões de nenhum tipo, tenham coragem para denunciá-las, e possam também superá-las depois. Mas também é indispensável para aqueles homens de personalidade irritada, agressiva, violenta, explosiva, para que trabalhem as causas desse comportamento e possam controlá-lo. E, é claro, para as crianças e adolescentes da família, parte extremamente frágil de toda essa relação.

...

>> Sobre a autora: Lelah Monteiro é sexóloga, psicanalista e fisioterapeuta (www.lelahmonteiro.com.br). Atua em seu consultório em Perdizes (São Paulo, SP) como educadora sexual; terapeuta de casais, de família e sexual. Colunista e colaboradora de revistas, programas de rádio e TV com pautas relacionadas a comportamento, relacionamento, saúde, qualidade de vida e sexualidade. Atualmente comanda o quadro Sexpresso, todas as sextas-feiras, a partir das 13h, no programa Expresso Capital, na Rádio Capital AM.


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